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O primeiro ano de pontificado do Papa Leão XIV

O primeiro ano de pontificado do Papa Leão XIV

PONTIFICATUS NOSTRI ANNO PRIMO. PAX
NO PRIMEIRO ANO DE NOSSO PONTIFICADO: PAZ!

Aos 8 de maio de 2025 a humanidade acompanhou a fumaça branca que saia da Capela Sistina, no Vaticano, comprovando a eleição de Robert Francis Prevost como 267º sucessor de São Pedro.

Sua figura neste último ano tem sido frequentemente associada à de seu antecessor, o argentino Jorge Mario Bergoglio, antes cardeal de Buenos Aires, que adotou o nome de Papa Francisco e faleceu às 7h30min da manhã de uma segunda feira, logo após celebrar o Domingo de Páscoa em 2025. Renovador e considerado por muitos um “revolucionário”, também conhecido como “papa dos pobres”, Francisco foi um homem que falou aos últimos, aos descartados, aos “de fora”, àqueles que talvez nunca tinham ouvido falar de Jesus Cristo. Viveu e morreu como anunciador da Vida e encontrou-se finalmente com Deus justamente quando a Igreja Católica celebrava a Ressurreição de seu fundador. Entusiasta pela vida nova, não se preocupou tão somente com os fiéis católicos e com as formalidades institucionais da Igreja Católica, mas com a Universalidade da História da Salvação. Afinal de contas, Jesus se encarnou “para todos” e a palavra “católico” significa o mesmo: universal, para todo o mundo.

                                                                                     Bispo Prevost, missionário no Peru
Francisco foi quem promoveu um missionário e antigo Superior Geral da Ordem de Santo Agostinho, Frei Robert Francis Prevost, OSA. Ele o escolheu como administrador apostólico (2014) e depois como bispo para a Diocese de Chiclayo, no Perú (2015). Em janeiro de 2023, Francisco por fim nomearia o Bispo Prevost como Prefeito do Dicastério para os Bispos. Logo em seguida, aos 30 de setembro de 2023, o criou cardeal.

O Papa governa a Igreja no mundo inteiro. Os Dicastérios são como os “Ministérios”. O Dicastério para os Bispos tem por missão ajudar e cooperar com os Bispos e suas dioceses em todo o planeta. É um “escritório curial” popularmente conhecido e por alguns denominado como “fábrica de bispos”. Neste serviço que ajuda a eleger os bispos do mundo inteiro, o então Cardeal Prevost tornou-se mais conhecido. Todavia, já era há tempos um homem global, pois como frade e superior geral dos agostinianos entre 2001 e 2013, pode conhecer e dialogar com sacerdotes e fiéis de todos os continentes. Inclusive esteve no Brasil mais de uma vez, sendo um daqueles missionários alinhados com o que a Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium” chama de “Igreja em Saída”. Nasceu nos Estados Unidos, mas adotou a cidadania peruana, sendo também poliglota e detentor de uma invejável cultura e visão de mundo.

O primeiro papa estadunidense, que cresceu em uma rica potência mundial, optou não somente por uma vida simples de religioso. Escolheu ser missionário em uma parte pobre da América Latina, o Perú, especialmente em Trujillo e Chiclayo. Eleito Papa por obra do Espírito Santo, adotou o nome de Leão XIV. Um grande sinal, bastante sugestivo, do qual explicou também o motivo: Leão XIII foi Papa no fim do século XIX, um período difícil, quando escreveu a Rerum Novarum, uma Encíclica sobre a Justiça Social. Tal obra deu as bases para a Doutrina Social da Igreja Católica e especialmente ajudou o mundo todo na consolidação de leis trabalhistas. Impulsionou a garantia do direito dos operários e trabalhadores em geral, ao mesmo tempo considerando o direito de propriedade e os avanços de uma sociedade sofredora em meio aos governos e ações políticas injustas.

Frei Robert Francis Prevost, OSA, no dia de sua Ordenação Sacerdotal

Visto como um homem desarmado e desarmante, como ele mesmo afirmou e expressou com clareza em seu discurso geral neste primeiro ano como sucessor de São Pedro, o americano Prevost busca o contato e o diálogo com o povo, ao modo de um bom frade agostiniano. Leão XIV em seu primeiro discurso apenas eleito, parafraseou no Balcão de São Pedro a famosa afirmação de Santo Agostinho de Hipona: “Para vocês eu sou bispo, com vocês sou cristão”.

 

Como verdadeiro cristão, procura um diálogo pacífico e profícuo com o mundo. Como líder do povo católico, busca a exemplo do mandato de Cristo a Pedro “apascentar as ovelhas” (Jo 21, 15-17). Neste sentido, chamam a atenção as suas catequeses das quartas-feiras, promovendo ao povo fiel um contato com os riquíssimos ensinamentos da tradição da Igreja, enfatizando sua ação pastoral em diálogo com a contemporaneidade e sua riqueza doutrinal por ocasião dos 60 anos do último grande Concílio que renovou a Igreja Católica. Assim se pronunciou o pastor universal no último 7 de janeiro: “Iniciamos um novo ciclo de catequeses dedicado ao Concílio Vaticano II e à releitura dos seus Documentos. Esta é uma preciosa oportunidade para redescobrir a beleza e a importância deste evento eclesial”.

Um comentarista de rádio falou: “João Paulo II era como um ator famoso que o povo gostava de ver, Bento XVI era um estudioso e quem tinha capacidade gostava de escutá-lo. Por fim, Francisco era um Papa a ser tocadoMas, e agora, dos cinco sentidos, o que resta a este Papa?” Entre visão, audição e tato, considerando os outros “sentidos”, este Pontificado seria para o olfato? Ou para ser degustado? Ora, Leão já no dia da eleição se intitulou um filho de Santo Agostinho. Seu pai espiritual já respondeu com autoridade aos especuladores, acerca “das tentações dos sentidos”, que embora ajudem a ponderar na escolha de cair na tentação ou dela fugir, podem enganar o ser humano, tal qual escreveu no seu famoso livro Confissões. Ademais, o Santo Bispo de Hipona também aconselhou: “Imita a formiga. Sê formiga de Deus. Escuta a Palavra de Deus e guarda-a em teu coração. Abastece tua dispensa interior durante os dias felizes do verão e assim poderás encarar os dias difíceis da tentação durante os invernos de tua alma”.

Dom Frei Roberto Francisco, CARDEAL PREVOST, OSA, recebendo do Papa Francisco o barrete cardinalício no CONSISTÓRIO em que foi criado cardeal

A mídia, com seus julgamentos muitas vezes estereotipados, no mundo pós moderno cai na tentação da dinastia da imagem e do virtual, criando algumas narrativas ausentes de verdade. Sob os holofotes, o Bispo de Roma não é poupado. Se usa um paramento ou uma capa papal mais solene o chamam de Bento XVII. Se acena um gesto em favor dos pobres o intitulam Francisco II. Se tem uma posição mais doutrinal deveria ter escolhido o nome de João Paulo III. Mas, como omnis comparativo claudicat (= toda comparação é imperfeita) entre analogias absurdas, fato real é que cada pessoa diante de Deus é única e irrepetível. Neste sentido Leão XIV faz seu caminho e sua história, na individualidade e na verdade, consolidando-se como um homem observador, que aparenta prudência nas decisões, sem deixar de refletir e cooperar para que na alteridade existam ações em prol da paz e da justiça no mundo. Nesta mesma semana falou: “Desde o primeiro momento, quando fui eleito, e do qual está perto o aniversário (de um ano) eu disse ‘A Paz esteja convosco’. E a missão da Igreja é pregar o Evangelho e anunciar a paz. Se qualquer pessoa quer me criticar por anunciar o Evangelho, que o faça amparado na verdade. A Igreja há anos pronunciou-se contra todas as armas nucleares, e então quanto a isso não há dúvidas. Portanto, espero simplesmente ser escutado pelo valor da Palavra de Deus”.

O então Cardeal Robert Francis Prevost com Papa Francisco

Na Semana Santa, ligando a riqueza do Evangelho com as necessidades da sociedade hodierna, ele já discorrera profeticamente em sua homilia: “Irmãos e Irmãs, este é o nosso Deus. Jesus, Rei da Paz, um Deus que rejeita a Guerra, e ao qual ninguém pode usar para justificar a Guerra. Um Deus que não escuta a oração de quem faz Guerra, mas a rejeita dizendo que ainda que multiplicasse as preces, mesmo assim não as escutaria, porque as suas mãos gotejam de sangue. Cristo, Rei da Paz grita agora de sua cruz: ‘Deus é amor, tenham piedade, deponham as armas, recordem-se de que são irmãos’”.

Há burbúrios de que está para ser publicada a primeira Encíclica do Papa Leão XIV, e que esta trataria fundamentalmente de questões ligadas a justiça social e também de temas ligados à inteligência artificial. Oxalá o Magistério do Romano Pontífice e os seus apelos por Paz e Fraternidade encontrem ecos ao redor do mundo criado por Deus. E mais: por parte dos que creem, possa haver maior compromisso cristão, aliado a orações para que na Igreja santa e pecadora jamais faltem a obediência das ovelhas e a solicitude do pastor. Como expressa o adágio romano: Ad multos Annos! Augúrios para que o Papa tenha muitos anos pela frente!”.

Inúmeros palácios e igrejas aqui em Roma ostentam em latim o nome do Papa que os mandou construir, e tal qual nos documentos papais, sempre trazem inscrito no fim das contas o Ano de Pontificado do Romano Pontífice em questão. A palavra que mais resume o que foi construído neste primeiro ano de pontificado de Leão XIV é PAZ! Sugestivo é dizer de Leão XIV: Pontificatus Nostri Anno Primo. PAX!

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Por
Padre Fabiano Dias Pinto
Presbítero da Arquidiocese de Curitiba- Paraná (Brasil)
Doutorando em Direito Canônico- Roma (Itália)

https://arquidiocesedecuritiba.org.br/artigo-o-primeiro-ano-de-pontificado-do-papa-leao-xiv/

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