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“COM OS PÉS NO CHÃO E O CORAÇÃO EM DEUS”: CARMELITAS REFLETEM SOBRE SUA MISSÃO NO MUNDO

“COM OS PÉS NO CHÃO E O CORAÇÃO EM DEUS”: CARMELITAS REFLETEM SOBRE SUA MISSÃO NO MUNDO

Fraternidades e sodalícios da Diocese da Campanha aprofundaram o carisma do Carmelo em um encontro marcado por formação, testemunhos e forte espírito fraterno.

No último sábado, 25 de abril, o Salão Paroquial Monsenhor José Hugo Goulart, anexo à Catedral Santo Antônio, em Campanha, acolheu o I Encontro de Comunhão, Formação e Fraternidade Carmelitana, uma iniciativa conjunta dos sodalícios e fraternidades da Ordem Terceira do Carmo presentes no território da Diocese da Campanha. Estiveram reunidos os sodalícios de Carmo de Minas e Passa Quatro, as fraternidades de Campanha e Elói Mendes, além da presença especial do grupo da Ordem do Carmelo Descalço Secular (OCDS), ligado ao Carmelo São José de Três Pontas — sinal concreto da comunhão entre o Carmelo da Primeira Observância e o Carmelo Descalço, que, embora vivam tradições distintas, partilham a mesma espiritualidade nascida de Santo Elias. O encontro destacou a importância da formação contínua, da troca de experiências e da vivência fraterna que fortalece a missão dos leigos carmelitas no mundo de hoje.

O tema do encontro

Os terciários carmelitas reunidos meditaram sobre a vocação do leigo carmelita no mundo de hoje, buscando responder à pergunta que norteou toda a tarde: “Quem somos nós no meio do mundo?”. A reflexão partiu da afirmação provocativa que ecoou entre os participantes: “Nem freira frustrada, nem padre incompleto. Somos leigos consagrados, com os pés no chão e o coração em Deus.” O encontro foi conduzido por Frei Alonso Gustavo Malaquias, Delegado Provincial para a Ordem Terceira da Província Carmelitana Fluminense, à qual estão vinculados os sodalícios e fraternidades presentes na Diocese da Campanha.

A primeira colocação da tarde foi realizada pelo pároco da Catedral Santo Antônio, Cônego Bruno César Dias Graciano, que refletiu sobre a vocação do leigo carmelita e sua comunhão com a missão da Igreja à luz do Direito Canônico. O sacerdote destacou que o leigo carmelita não é apenas alguém que participa de um grupo, mas “alguém que é a Igreja”. Ele explicou que a vocação carmelitana se fundamenta em uma configuração espiritual que nasce do “silêncio, da contemplação e da intimidade com Deus”, elementos essenciais da espiritualidade do Carmelo.

O silêncio carmelitano também foi destacado pelo ir. Fernando Augusto Pereira da fraternidade de Elói Mendes: “Como carmelita, o recolhimento, o silêncio para mim é fundamental pois é nele que encontramos aquilo que realmente devemos ser, ignorando os ruídos externos do mundo contemporâneo!.

Um dos eixos centrais da fala do Côn. Bruno foi a impossibilidade de viver o Carmelo isoladamente: “Não se vive o Carmelo sozinho, vive-se em fraternidade”, afirmou. Ao abordar o Direito Canônico, explicou que os cânones 298 a 329 oferecem o arcabouço jurídico para as associações de fiéis. Ressaltou também que a Ordem Terceira do Carmo é, juridicamente, uma Associação Privada Internacional de Fiéis.

Em seguida, Frei Alonso Gustavo Malaquias apresentou uma catequese profunda sobre o Mistério Pascal e sua íntima ligação com o carisma carmelitano. Retomando elementos de sua Mensagem de Páscoa, o frei recordou que a espiritualidade do Carmelo nasce da contemplação do Santo Sepulcro, afirmando: “não é por acaso que nossas antigas igrejas carmelitas guardam a imagem do Senhor morto sobre o altar-mor, enquanto logo acima situa-se o sacrário onde habita o Ressuscitado”. A partir dessa imagem, introduziu a expressão latina que sintetiza o carisma carmelitano: Vacare Deo, que significa “esvaziar-se para Deus, criar vaga para Deus”. Ele explicou que, assim como o sepulcro acolheu Cristo por estar vazio, também o carmelita deve “tirar da vida aquilo que não presta… para que a vida possa se encher de Deus”. Em seguida, apresentou a segunda expressão fundamental: Vivit Deo“viver para Deus”, recordando as palavras de São Paulo: “Cristo ressurgiu dos mortos… Ele vive para Deus”.

A última reflexão da tarde foi conduzida pelo Irmão Alan Lucas de Lima, formador da Fraternidade de Campanha, que aprofundou o tema da vocação do leigo carmelita a partir do número 28 da Regra da Ordem Terceira. Ele destacou que os carmelitas leigos são chamados a transformar o mundo secular, afirmando: “Todos os carmelitas que estão no mundo… a vocação dos leigos é a de transformar o mundo secular”. Flávio da Silveira, do sodalício de Passa Quatro sintetizou esse pensamento dizendo que “ser carmelita é ser Deus no meio do povo”.

Alan Lucas reforçou que o campo de missão do carmelita é o cotidiano: “O nosso lugar é o nosso campo de missão… e onde é o seu cotidiano? É no trabalho? É na sua casa? Na sua família?”.

Para o Irmão Francisco Aparecido dos Santos, do sodalício de Carmo de Minas, ser carmelita hoje significa assumir um modo de ser profundamente cristão em meio a um mundo barulhento e disperso. Ele recorda que o carmelita é chamado a cultivar três pilares: oração, caridade fraterna e silêncio interior. Em um tempo marcado por ruídos e distrações, o silêncio torna-se caminho para encontrar Deus, como ensinou o profeta Elias na “brisa suave”.

Inspirado na Lumen Gentium, Alan Lucas recordou que o leigo é chamado a ordenar as realidades do mundo segundo Deus: “O leigo é aquele que vive no mundo, mas pertence a Cristo e participa da missão da Igreja”. E provocou os presentes com uma pergunta direta: “Será que o mundo está ordenado para as realidades de Deus? Essa é a nossa missão.”

“Todo dia a gente tem que enfrentar a nossa rotina, o nosso dia a dia, as coisas, o trabalho, a vida. Mas o nosso coração é desejo do amor de Deus, o nosso coração tem sede do céu, tem sede de estar perto de Nossa Senhora e de Jesus Cristo. Então, para mim, ser carmelita nos dias de hoje é grande batalha. Mas é uma batalha que eu gosto de lutar todos os dias” declarou Neila Soares, terciária da fraternidade de Campanha.

Após as três falas, os participantes partilharam um momento de confraternização com um lanche fraterno, reunindo cerca de 60 pessoas em clima de alegria e comunhão, preparando o coração para a celebração da Santa Missa que encerrou o encontro.

Santa Missa

Logo após a oração da Ave-Maria, os terciários carmelitas organizaram uma procissão do Salão Paroquial até a Catedral Santo Antônio, rezando e entoando cantos tradicionais do Carmelo. A celebração eucarística foi presidida pelo bispo diocesano, Dom Walter Jorge Pinto, recém-chegado da 62ª Assembleia Geral da CNBB. Em sua homilia, Dom Walter refletiu sobre a figura do Bom Pastor, imagem central do Evangelho do IV Domingo da Páscoa, recordando que Cristo conduz seu rebanho com ternura, firmeza e misericórdia. O bispo também comentou sobre a assembleia episcopal realizada dias antes, ressaltando a importância do discernimento conjunto para o futuro da evangelização no Brasil. Ele explicou que os bispos estiveram reunidos “para deliberar como a Igreja do Brasil caminhará nos próximos seis anos”, e celebrou o caráter sinodal do processo, afirmando que “a Igreja no Brasil tem um caminho admirado no mundo inteiro… caminhando de modo sinodal, discernindo os sinais dos tempos”. Ao final, exortou os fiéis a rezarem pelas vocações e a permanecerem firmes na Igreja real e concreta, santa em sua origem e humana em seus membros.

Em um momento de grande emoção, Dom Walter surpreendeu os carmelitas ao partilhar um testemunho pessoal de sua juventude, revelando sua ligação antiga com a espiritualidade do Carmelo. Disse o bispo:

“Apenas partilho com vocês o que partilhava aqui com Frei quando ainda era leigo. Quando jovem, eu queria tanto um caminho de santidade e me falava tão caro, tão alto, Santa Terezinha, Santa Teresa, São João da Cruz, que eu me tornei um Carmelita da Fraternidade dos Carmelitas Leigos, que tinha sede lá em Marimbá, em Belo Horizonte. E nós criamos um grupo. Éramos assistidos pelas irmãs carmelitas da Divina Providência, nos juntávamos aos diversos carmelitas em São João del-Rei. Meu Deus, aqueles jovens que éramos, navegávamos nessas águas profundas da espiritualidade carmelitana.” (acesse o depoimento completo de D. Walter na página do Instagram da diocese da Campanha: @diocesedacampanha)

O próximo encontro da família carmelitana já está agendado: será no dia 27 de junho, na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, em Carmo de Minas. As fraternidades e sodalícios da Diocese são convidados a participar, fortalecendo ainda mais a comunhão fraterna entre os leigos carmelitas.

Prof. Me. Flávio Maia Custódio
Pasconeiro e Irmão Terciário Carmelita –
Fraternidade de Campanha

Foto de Diocese da Campanha

Diocese da Campanha

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