O ano é 1191 e estamos nos tempos das cruzadas, aquelas guerras, que se acreditavam santas, porque tinham o objetivo de libertar a Terra Santa do domínio dos muçulmanos. Mas, há tanta morte, tanta dor, tanto desgaste. Aquelas glórias, que muitos buscavam nessas guerras, para alguns homens, agora lhes parecem glórias vãs. Depois de tantas guerras, pressentem que têm perdido a guerra mais importante, e que não se trava fora, mas dentro do homem. Suas almas estão insatisfeitas e não querem mais voltar à sua terra natal, na Europa. Haviam conquistado a Terra onde Jesus nasceu, viveu e morreu, mas os seus corações parecem lhes escapar. Sentem que não os dominam. Estão cansados do que o mundo lhes pode oferecer, pois pressentem que Cristo lhes convida a uma outra batalha, mais difícil e silenciosa. Era preciso conquistar aquele tesouro que o ladrão não rouba, a traça não destrói, o tempo não leva. Há um outro Reino tão diferente do reino dos homens e uma glória tão maior do que aquela que os homens lhes podem oferecer. Querem conquistar este novo território, que se localiza primeiramente em seus próprios corações, lá naquele interior da alma onde Deus, secretamente mora.
Alguns deles decidem ficar no Monte Carmelo, um lugar de beleza e paz, que remonta aos tempos do Profeta Elias, homem de Deus, que buscou a sua Face, que lutou pela pureza da fé de Israel, pelo culto verdadeiro, pela justiça do Reino de Deus. Elias agora os inspira a se retirarem e a viver de maneira solitária a sua própria busca por Deus. Assim como Elias um dia viu uma pequena nuvenzinha no céu e percebeu tratar-se de um sinal de Deus anunciando que uma generosa chuva viria molhar a terra (Cf. 1Rs 18,44-46), acabando com mais de três anos de uma dura e terrível seca, aqueles homens logo percebem que para eles, Maria estava simbolizada por aquela pequenina nuvem, como a anunciar-lhes que os ajudaria em sua busca pelo Senhor, o único que lhes poderia saciar a sede que, como terra seca e árida, seus corações sentiam, assim como o salmista que um dia, inspirado pelo Espírito cantou: “Minha alma tem sede de Deus, como a terra sedenta e sem água. Quando terei a alegria de ver a face de Deus?” (Cf. Sl 63 e Sl 41). Nesta busca, Maria será a “flor do Carmelo”, a causa de suas alegrias, pois sabem que com sua materna intercessão, conseguirão chegar àquele mesmo Senhor que um dia, repousando e crescendo no seu ventre, se tornou seu Filho e seu Deus. Maria será a estrela maior daqueles moradores do Carmelo, daqueles carmelitas, sedentos de Deus.
Alguns anos mais tarde, já vivendo em comunidades carmelitanas na Europa, os sucessores daqueles primeiros filhos da Senhora do Monte Carmelo, mais uma vez podem ter a prova de que esta Senhora, que jamais os abandonara, estará sempre ao seu lado, cumprindo-se a palavra de Jesus no testamento da cruz, quando disse ao discípulo amado, indicando-lhe Maria: “filho, eis aí a tua Mãe.” As perseguições se multiplicam contra eles, e eis, então que intervém a Senhora do Carmo, atendendo às suas súplicas, quando, numa visão, diz ao superior carmelitano, São Simão Stock, que não temessem, pois que ela os protegeria e os conduziria a Jesus, e, apresenta-lhes, o escapulário, como sinal de tal proteção, inclusive na hora da morte, para todo aquele que confiasse em sua materna proteção. Desde então, as perseguições foram perdendo sua força ao passo que a devoção à Nossa Senhora do Carmo crescia sempre mais. Logo, à sombra maternal da Virgem do Carmelo, os carmelitas viram juntar-se às estrelas de Maria, Elias e Eliseu presentes em seu escudo, uma inumerável multidão de santos e santos, que tiveram na espiritualidade carmelitana sua inspiração. Santa Teresa d’Ávila, São João da Cruz, Santa Terezinha do Menino Jesus, Santa Elizabeth da Trindade, Santa Benedita Teresa da Cruz (Edith Stein), são exemplos luminosos de tal constelação. E mesmo fora do Carmelo, a devoção à Virgem do Carmo fez parte da vida de outros inúmeros santos, de papas como São João XXIII, São Paulo VI, São João Paulo II, de uma multidão de clérigos, religiosos e religiosas e de leigos e leigos sem conta.
Em sua linda imagem, vemo-la vestida com o hábito carmelitano, a nos apresentar o seu Menino, o mesmo que gerou em seu ventre e que sempre foi a Vida de sua vida e a razão de todo o seu viver. Contemplando-a, é como se pudéssemos ouvi-la a nos dizer: “recebei o meu Filho e não tenhais medo de fazer tudo o que ele vos disser ao longo de toda a vossa vida. Somente nele encontrareis a paz que procurais, pois somente ele pode oferecer o essencial”.
Irmãos, Maria, a Senhora do Carmo, é caminho seguro para Jesus, é torre de proteção nesta nossa vida tão cheia de perigos, é estrela do mar, em meio às noites dos mares tão tempestuosos que navegamos. Ela é a mulher do silêncio necessário, silêncio que nunca significou omissão ou entorpecimento, mas caminho de contemplação que nos leva ao único necessário em nossas vidas. A Virgem Senhora do Carmo nos ensina a confiar, mesmo quando as batalhas perecem perdidas, pois ela é a mulher vitoriosa que enfrentou as dores de ter assumido a missão de Jesus, desde o seu ventre até a cruz e a ressurreição. Maria é a mãe da obediência, que nos ensina a viver em obséquio de Jesus, a obedecer a Deus, entregando-lhe nossas vontades, mesmo quando tudo parece absurdo, pois foi assim, confiando, que viu seu ventre tornar-se fecundo mesmo não tendo conhecido homem algum. A Virgem Mãe do Carmo é a mulher que ensina a não duvidar e nem vacilar, assim como quando ordenou aos serventes da festa em Caná da Galileia, a fazer tudo o que seu Filho lhes dissesse, mesmo que parecesse um contrassenso encher de água seis talhas de cem litros cada. Ela sabe que o vinho da alegria virá, e que as bodas Deus com o seu povo hão de continuar e serão consumadas por esta via confiante e humilde.
A devoção a Nossa Senhora do Carmo iluminou, formou e socorreu ao longo de muitos séculos, homens e mulheres que nela confiaram. Tenhamos a certeza, também nós, homens e mulheres do século XXI, tão cheios de desafios, e que, por vezes podem nos parecer intransponíveis, de tê-la como Mãe digna de amor e confiança, entreguemo-nos à sua proteção e intercessão, sigamos seus passos, ouçamos sua voz a nos dirigir para a realização da vontade de Jesus. Estejamos certos, que agora e na hora de nossa morte, jamais haverá Mãe tão boa e amável. Viva Nossa Senhora do Carmo!
Dom Walter Jorge Pinto
Bispo Diocesano da Campanha