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HOMILIA PARA A FESTA DO BEATO FRANCISCO DE PAULA VICTOR

HOMILIA PARA A FESTA DO BEATO FRANCISCO DE PAULA VICTOR

Queridos padres e diáconos, queridas religiosas, queridos romeiros do Beato Pe Victor e fieis da nossa estimada Paróquia de Nossa Senhora da Ajuda, onde estão os restos mortais do nosso amado Pe Victor,

Que alegria estarmos juntos para celebrarmos os mistérios da nossa fé cristã, com toda a sua beleza, a qual se revela na vida dos santos. Os santos, como nos lembra o Papa Leão XIV continuam a formar novos santos, pois nos estimulam no caminho da santidade, que é para todos.

Gostaria de percorrer com vocês o itinerário da vida deste homem de Deus, o Pe Francisco de Paula Victor, para que ele nos ajude a ser a Igreja que precisamos ser, Igreja formadora de santos, de homens e mulheres discípulos de Jesus Cristo. Igreja de portas abertas para acolher a todos, com uma tenda que se alarga.

O HOMEM PE VICTOR

Não estamos diante de um super-herói, mas de um ser humano de valor, que soube fazer a dignidade humana, da qual todos somos portadores, brilhar numa vida embelezada por virtudes.

Nasceu na condição desumana da escravidão, chaga aberta na história da humanidade a nos envergonhar a todos, a nos revelar que somos capazes do melhor e do pior para com os nossos semelhantes. Mas o homem preto Francisco de Paula Victor não se intimidaria diante desta chaga, não deixaria de sonhar, de correr atrás dos seus projetos, de escrever com a sua vida um livro com uma bela biografia, procurando marcar a vida dos outros o mais positivamente possível. Embora fosse vítima, não se conformou em se viver como uma, mas tornou-se sujeito de sua própria história. Não reagiu com raiva diante de sua história, mas venceu o mal com a única arma possível de vencê-lo, o amor que gera a justiça do reino.  Abraçou com determinação as chances que encontrou no comportamento humano de sua senhora e madrinha, Marianna, abraçando a educação como caminho de promoção humana, aprendendo a ler e escrever, inclusive aprendendo o francês, coisa impensável para a maioria absoluta dos negros da primeira metade do século 18, principalmente para um escravo, filho de escrava. Alforriado, aprendeu profissão, alfaiate, e trabalhou com dignidade. Determinado, apresentou-se ao poderoso bispo de Mariana à época, D. Viçoso Ferreira, homem atento aos sinais de seu tempo, defensor dos escravos e que soube enxergar naquele jovem, uma pessoa virtuosa o suficiente para o receber onde, até então, nunca havia estudado um ex-escravo, o influente Seminário São José, da Diocese de Mariana.

Quantas lições aprendemos com o homem Pe Victor, lições tão atuais para tempos violentos e raivosos como os nossos, onde muitos pensam resolver os problemas pelos errôneos caminhos do ódio e da vingança.

AGORA, FALEMOS DO CRISTÃO FRANCISCO DE PAULA VÍTOR

Antes ainda de falarmos do Pe Victor, é preciso nos atermos ao cristão Francisco de Paula Victor, pois, normalmente não se pode ser um bom padre se antes não se é um ser humano de valor e bom cristão.

Educado na fé cristã católica, o menino Victor se revelaria logo um cristão convicto e já revelaria na juventude o seu sonho de ser padre da Igreja. Ninguém pode expressar tantas virtudes como as que o Pe Victor revelou em sua vida, se também não nutrisse um amor a Deus sobre todas as coisas, se não o amasse de todo o seu coração, com toda a sua alma e com todas as suas forças, como ensinou Jesus acerca do fundamento da fé cristã. Ele não poderia ter sido o que foi, se não amasse a Jesus de forma apaixonada, ao ponto de querer dar a Ele toda a sua vida, de empenhar a Ele todo o seu ser, tudo o que era e que possuía. Não o poderia também se não acreditasse que a Igreja que Jesus quis para si e a edificou sobre os Apóstolos, não fosse algo que valesse a pena servir com todas as suas forças. Sim, o cristão Victor amou a Deus com todas as suas forças e amou a Igreja de Jesus, Igreja da Virgem Maria e dos Santos com todo o seu coração.

E o cristão, Francisco de Paula Victor teria oportunidade para demonstrar que o cristianismo que vivia, não era feito de palavras mais do que de atitudes. Ao chegar ao Seminário, tendo sido conduzido pelas portas dos fundos e experimentado muitas humilhações da parte dos jovens de seu tempo, que não podiam compreender que, tão diferentemente dos homens, Deus não faz acepção de pessoas pela cor de sua pele ou de sua condição social. Não percebiam que o cristianismo é uma proposta que ultrapassa os condicionamentos humanos, por vezes muito mesquinhos, pois, embora perseguissem um ideal nobre e santo, estavam mergulhados na ideologia de seu tempo e, mesmo pessoas boas podem cometer grandes erros quando estão imersos em ideologias. Mas, mesmo diante disto, o nosso jovem Victor vai mostrar que, assim como Cristo, também ele veio para servir, e, não fazendo caso das humilhações, mas, valendo-se delas, ele foi desarmando os corações mais duros com uma humildade e mansidão tão semelhantes ao manso Cordeiro, que ele sabia, tinha vindo para o maior de todos os serviços à humanidade: dar a sua vida em troca da vida de cada homem e mulher nascido na terra.

POR FIM, FALEMOS DO PRESBÍTERO OU O PADRE FRANCISCO DE PAULA VICTOR

Tendo superado todos os desafios, chegou o dia em que, aos 24 anos de idade, o jovem Francisco de Paula pode escutar quando o bispo lhe disse: “tu és sacerdote para sempre segundo a ordem do rei Melquisedec”. Era o dia da sua ordenação presbiteral, e agora ele era o Padre Victor, Presbítero de sua amada Igreja Católica. Agora, seu coração configurado ao do Cristo Bom Pastor, estava pronto para iniciar a missão.

Mas, assim como Jesus, também ele teria que sofrer muitas incompreensões, pois a sociedade escravagista de seu tempo, também mergulhada nesta triste e pecaminosa ideologia, não estava pronta para aceitar que um homem preto, ex escravo, pudesse representar na sua pessoa a Pessoa do Cristo, sacerdote da Nova Aliança, que se fez em tudo igual a todos os homens, exceto o pecado. Pe Victor, no entanto, não se deixa vencer uma vez mais pelo mal e retribui, de forma maravilhosamente cristã, todas as humilhações com um amor tão humilde e profundo, que todos vão percebendo estar diante de um homem de uma nobreza não comprada com dinheiro e nem com o poder, mas com as virtudes aprendidas do coração do próprio Jesus a quem ele servia.

Abertos os corações, o Pe Victor vai revelando a sua compreensão de Igreja aberta a todos, como uma tenda de encontro, que vai se alargando para acolher a todos os que a ela acorriam: desde os ricos barões do café até os pobres mais pobres que lhe batiam à porta, os doentes sem amparo, as crianças a serem formadas para serem também elas, como ele, pessoas de valor, cuja história vale a pena conhecer. Logo o Pe Victor surpreende a quem o julgava simplório e inábil, fazendo o fieis entenderem que a educação é caminho aprovado pelo Deus a quem serve, como caminho para promover o ser humano, e funda escolas, onde ele próprio haveria de lecionar. Fé e razão se encontram, em vez de se oporem, e se iluminam mutuamente para formar o ser humano de vida plena querida por Jesus.

A Igreja que podemos colher da vida do Pe Victor é a Igreja que não pode ficar indiferente ao sofrimento humano, indiferente ao pobre que sofre, indiferente ao destino das pessoas sobre a terra, mas é uma Igreja empenhada em fazer os filhos de Deus a viverem de modo digno. Também é, como nos revela a vida do Pe Victor, que viveu e morreu pobre, uma Igreja igualmente pobre, que usa os recursos deste mundo não para se promover ou defender, mas para evangelizar de todos os modos, seja pelo anúncio corajoso do Evangelho de Jesus, seja obedecendo-lhe a ordem de dar ela mesma de comer a quem tem fome.

Queridos irmãos e irmãs, como é feliz a Diocese da Campanha por contar com santos a quem pode cultuar como modelos e intercessores. Que alegria podermos percorrer a história do nosso querido Pe Victor e perceber que a santidade é um chamado possível para todos os que realmente a queiram. Nossas diferentes histórias não nos excluem dela, mas nos incentivam a ornar a Igreja de hoje com diferentes tipos de santidade. Como é bom perceber que não há obstáculo para quem confia com todas as forças na graça de Deus, para quem nada é impossível. Como sua história nos enche de coragem e motivação para também nós transformamos nossa história em história de santidade, de fé convicta e determinada no seguimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Olhando para ele, queremos nos tornar cada dia mais discípulos de Cristo, seguidores seus e também missionários seus, ser uma Igreja missionária, anunciadora de que o Evangelho do Senhor é o caminho para mudar as pessoas e o mundo. Como o Pe Victor, queremos nós também vencer o mal com o bem, conscientes de que o poder do bem é infinitamente maior que o mal, embora este faça mais barulho, como é próprio de quem não tem conteúdo verdadeiro a oferecer. Com ele, queremos ser a Igreja da comunhão e da unidade, que vence as divisões pela força do amor que gera fraternidade, que acolhe as diferenças como riquezas e não como motivo para inimizades. Igreja de sacerdotes santos, servidores do evangelho da vida, abnegados, entregues à sua missão. Igreja de leigos e leigas participantes da fé, unidos aos seus bispos e aos seus padres, comunidade de discípulos missionários empenhados em caminhar juntos rumo ao reino definitivo.

Que o nosso Beato Pe Francisco de Paula Victor, o anjo tutelar de Três Pontas, rogue por todos nós junto a Jesus.

Três Pontas, 23/09/2026
Dom Walter Jorge Pinto (Bispo da Campanha)

Foto de Diocese da Campanha

Diocese da Campanha

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