Ao lançar a sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV a inicia afirmando que “A Magnífica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos.”
Ao se referir ao episódio bíblico da torre de Babel, o Pontífice aponta para uma passagem bíblica presente em Gn 11, 1-9, onde os homens pretendem construir uma civilização por meio de seus próprios esforços, deixando Deus à margem, cheios que estão de uma confiança sem limites no poder de sua razão, na própria interpretação da vida e da História e na sua capacidade técnica. O episódio termina com a confusão das línguas, onde ninguém mais entende ninguém, tendo-se que abandonar o projeto daquela torre que alcançaria o céu, símbolo da arrogância humana.
Diante das possibilidades que se têm aberto para a humanidade desde o advento da internet, temos constatado que esta análise do Papa Leão se reveste de uma relevância imensa, pois, se de um lado verificamos as capacidades infinitas abertas pela internet para o desenvolvimento do mundo, por outro constatamos que o perigo de a humanidade repetir o episódio da Torre de Babel se revela com toda força. Parece que, quanto mais se desenvolvem as oportunidades para a humanidade na internet, menos as pessoas se entendem. Entre tantos indícios que evidenciam este fato, cito as redes sociais.
Desde há algum tempo temos visto crescer no mundo o fenômeno da polarização, onde as pessoas e os grupos apresentam, sobretudo por meio das redes sociais, seus pontos de vista e argumentos para defender sua compreensão da realidade e atacar as posições que lhe são contrárias. Especialmente por meio da política, tais posições se tornaram de tal modo polarizadas, que a confusão se instaurou e se tem agravado, de modo a acirrar os ânimos, suscitando ódios que têm contaminado a todos, como um veneno que se toma e o qual intoxica a pessoa de tal maneira, que ela já não consegue mais percorrer os caminhos do diálogo construtivo e saudável, não conseguindo mais senão desejar beber cada vez mais deste mesmo veneno que julga ser a verdade e aumentar, assim, a sua raiva.
Fico pensando que ódios centenários, e até milenares, entre alguns povos que vivem em constante guerra, como constatamos no Oriente Médio, foram nutridos por ódios venenosos que foram plantados ao longo de gerações, onde as crianças, ouvindo de seus pais cheios de rancor a interpretação dos fatos e vendo suas ações carregadas de horror pelos seus inimigos, foram contaminadas desde pequenas, e, crescidas, já não conseguem senão fazer o mesmo.
Será que não estamos preparando o terreno para realidade semelhante em nosso País? Será que os ódios que temos visto serem destilados nas redes sociais vão cessar, independentemente de qual lado estiver no poder? Não serão eles alimentados eternamente com argumentos que sempre justifiquem a posição que se apoia, mesmo quando os representantes de tal posição estiverem verdadeiramente errados, afirmando que a culpa é de quem está do outro lado, sempre prejudicando aqueles que escolhemos de maneira cega? Estarão já as nossas crianças e adolescentes envenenados o suficiente para continuarem o atual desatino? Tenho a impressão que os que estão contaminados com as ideologias presentes nos atuais extremismos nunca conseguirão sair do círculo venenoso no qual entraram, a menos que parem de beber do veneno que estão bebendo e possam ir se desintoxicando lentamente. Receio que possamos estar caminhando para situações de verdadeiros conflitos sociais entre irmãos, filhos de um mesmo povo, podendo mesmo chegar a estados de guerras fratricidas.
Precisamos desarmar os mecanismos geradores das torres de Babel com atitudes que gerem pacificação ou seremos responsabilizados por uma sociedade mergulhada no caos. O antídoto ao veneno do ódio nos é dado por Jesus quando nos ensina que devemos amar até os inimigos. Parar de beber nas fontes dos venenos que temos bebido, nas redes sociais promotoras dos ódios entre nós, seria um bom começo para isto.
Dom Walter Jorge Pinto
Bispo da Campanha