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O “TRABALHO” À LUZ DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA – UMA REFLEXÃO POR OCASIÃO DO DIA TRABALHO E DO TRABALHADOR

O “TRABALHO” À LUZ DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA – UMA REFLEXÃO POR OCASIÃO DO DIA TRABALHO E DO TRABALHADOR

WhatsApp Image 2019-05-06 at 10.17.58Tendo em vista a passagem do Dia do Trabalho e a realização da 29ª Romaria do Trabalhador em nossa Diocese, partilhamos uma breve reflexão sobre a questão do trabalho a partir do ensino social católico.

“O meu Pai trabalha sempre, e eu também”, diz Jesus (Jo 5, 17).

A dimensão do trabalho é uma grande característica da complexa dignidade do ser humano. Cada pessoa é sonhada e desejada por Deus em Seu divino trabalho criador. A Bíblia começa falando de Deus como trabalhador, um Deus que faz um belo trabalho de amor, criando tudo que existe com uma beleza profunda e transcendente e, especialmente, criando o ser humano conforme a sua própria imagem (cf. Gn1, 1-26).

Neste sentido, a dignidade humana se radica, sobretudo, no fato de ter sido criado por Deus, como imagem e semelhança Dele. E, Deus, dentre as características que nos deu, nos presenteou com o dom do trabalho, com a bela missão de cultivar e guardar o seu jardim (cf. Gn2, 5-6.15), ou seja, com o belo chamado de participarmos de seu trabalho criador (cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 263).

Essa compreensão teológica a partir do livro do Gênesis é fundamental, pois nos ajuda a entender que o trabalho jamais foi uma espécie de maldição divina para a humanidade. Jamais! A Igreja professa a dignidade do trabalho, pois professa, antes, a fé em um Deus que é trabalhador, que “trabalha sempre” e nos convida a tomar parte de Seu santo trabalho. O próprio Jesus que assumiu nossa humanidade em tudo, exceto no pecado (cf. Hb 4, 14), foi um exímio trabalhador, passando a maior parte dos anos de sua vida sobre a terra exercendo o ofício de carpinteiro, “trabalhou com mãos humanas” (Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n. 22) e, depois, em seu ministério público trabalhou incansavelmente pela libertação e dignidade integral da pessoa humana (cf. Encíclica Laborem exercens, 6, de João Paulo II; Compêndio da DSI, n. 259-260).

É uma pena que, tantas vezes, o trabalho tem se tornado um instrumento de sofrimento e de exploração das pessoas! Quantas vezes o trabalhador desenvolve seu trabalho com dedicação, mas não recebe o devido reconhecimento social, tem direitos (que já são poucos e fracos) atacados, submetidos à lógica do mercado, ao produtivismo desumano, ao consumismo sufocante, ao materialismo reducionista, imolando a dignidade humana no altar sacrílego do dinheiro idolatrado?! Ora, “o trabalho é essencial, mas é Deus – não o trabalho – a fonte da vida e o fim do homem” (Comp. da DSI, n. 257). Por consequência, nos ensina a Igreja que a exigência da justiça, que deve reconhecer a dignidade de cada pessoa e lhe dar o que é devido, está muito acima da busca por lucro. Por isso ela denuncia: “O curso da história está marcado por profundas transformações e por exaltantes conquistas do trabalho, mas também pela exploração de tantos trabalhadores e pelas ofensas à sua dignidade” (Comp. da DSI, n. 267).

Fere o coração da Igreja e a universalidade moral do ser humano que tantas pessoas ainda tenham que se submeter a formas de trabalho excessivas em carga-horária, com péssima remuneração e salário, com tendências ideológicas que desejam a naturalizar a diferença salarial entre homens e mulheres; é uma imensa dor que ainda existam milhões de pessoas sem teto, sem terra, sem pão, sem emprego, sem acesso ao lazer, à cultura, a uma educação de qualidade… Mas, conforme nos exorta o papa Francisco, podemos clamar: “Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá” (Discurso aos participantes no Primeiro Encontro Mundial de Movimentos Populares, 28/10/2014). E segue alertando-nos Francisco que toda falta de emprego aos jovens e a tantas pessoas, o trabalho informal sem direito algum, que deixa o trabalhador ainda mais exposto a diversas formas de exploração, estas e tantas outras situações laborais“são o resultado de opção social prévia, de um sistema económico que coloca os lucros acima do homem”. Ora, em um mundo em que reina a primazia do capital sobre o trabalho, há uma inversão perversa das coisas, transformando o homem em mercadoria e a mercadoria em valor “quase humano”.

Ensina a Igreja que o trabalho possui duas dimensões: uma dimensão objetiva (marcada pelo conjunto de atividades, recursos e técnicas de que nos dispomos para produzir) e uma dimensão subjetiva (que se caracteriza pelo próprio agir do ser humano como ser dinâmico, realizando a natureza laboral de nossa humanidade). Em uma relação hierárquica, a dimensão subjetiva vem em primeiro lugar, pois, como disse São João Paulo II: “Independentemente do seu conteúdo objetivo, o trabalho deve ser orientado para o sujeito que o realiza, pois a finalidade de qualquer trabalho permanece sempre o homem. O componente objetivo do trabalho deve ser subordinado à realização do homem e, portanto, à dimensão subjetiva, graças à qual é possível afirmar que o trabalho é para o homem e não o homem para o trabalho” (Encíclica Laborem exercens, n. 6).

Ora, uma sociedade que coloca o capital financeiro acima do próprio trabalho e do ser humano trabalhador, comete um verdadeiro e perigoso erro, não reconhecendo que “o trabalho tem uma prioridade intrínseca em relação ao capital” (Comp. da DSI, n. 277), numa relação complementar.

A denúncia profética da Igreja, entretanto, se completa com o anúncio também profético de “que ‘o desenvolvimento integral da pessoa humana no trabalho não contradiz, antes favorece a maior produtividade e eficácia do próprio trabalho’” (Comp. da DSI, n. 278). Isso significa que se o tão falado critério da eficiência econômica não serve para a promoção da dignidade de todos os homens e do homem todo, então, na verdade, ele não serve para nada! (cf. Paulo VI,PopulorumProgressio, n. 14).  E, por isso, mais uma vez, clamamos com o papa Francisco: “‘Não’ a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata” (Discurso no Encontro Mundial dos Movimentos Populares, Santa Cruz de laSierra, 09/07/2015).

Deste modo, “não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado. O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento econômico, embora o pressuponha” (Papa Francisco, EvangeliiGaudium, n. 204). Não ao reducionismo do trabalho! Não ao reducionismo do ser humano! E não nos enganemos, pois tanto quanto “o sistema liberal capitalista e a tentação do sistema marxista parecem ter esgotado em nosso Continente as possibilidades de transformar as estruturas econômicas. Ambos os sistemas atentam contra a dignidade da pessoa humana; pois um tem como pressuposto a primazia do capital, seu poder e sua discriminatória utilização em função do lucro; o outro, embora ideologicamente sustente um humanismo, visa antes ao homem coletivo e, na prática, se traduz numa concentração totalitária do poder do Estado.” (CELAM, Medellin, n. 10, Justiça).

Além do mais, é urgente lutarmos contra uma ideologia de formação fragmentária para o mercado de trabalho. Não basta investir apenas em uma formação técnica e prática, mas também é necessária uma sólida formação humana, que nos permita uma maior e melhor consciência social, antropológica, ontológica e teológica. Ensina a Igreja que, no que se refere à manutenção do emprego e das capacidades profissionais, “o sistema de instrução e de educação não deve descurar a formação humana, tão necessária para desempenhar com proveito as tarefas requeridas” (Comp. da DSI, n. 290).

Importa redescobrirmos, portanto, nossa dignidade integral, lutando bravamente por ela diariamente a partir de Cristo e do Seu Evangelho Social, e não de ideologias. Nós, trabalhadores cristãos, não militamos como um movimento social qualquer, mas pela força social que emana do Evangelho, de tal modo que “não será uma fórmula a salvar-nos, mas uma Pessoa, e a certeza que Ela nos infunde: Eu estarei convosco!” (João Paulo II, Novo Millennio Ineunte, n. 29).

O dia do trabalho só acontecerá verdadeiramente quando todos os dias forem o dia da dignidade integral do trabalhador. Sejamos irmãos, tenhamos fé e continuemos trabalhando sempre, como nosso Pai que está nos céus e nos seus, em nossas lutas, trabalhando conosco para que o Seu Reino venha a nós. Enquanto isso, que não nos falte o pão de cada dia, até o grande dia em que Deus então será tudo em todos (cf. 1 Cor 15, 28).

Fraternalmente,

Prof. Ms. Elvis Rezende Messias

(Coordenador do Curso de Aprofundamento Teológico em Doutrina Social da Igreja, Diocese da Campanha/MG).

Arte: Luis Henrique Alves

 

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