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O SER HUMANO É O SEU CORAÇÃO

O SER HUMANO É O SEU CORAÇÃO

Neste artigo apresentamos brevemente uma importante compreensão sobre a identidade humana: a pessoa é o seu coração. Chamemos isso de “antropologia do coração”. Essa verdade é especialmente apresentada na carta encíclica Dilexit nos (DN), do saudoso Papa Francisco, a última de seu pontificado. Ao falar sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus Cristo, o Pontífice argentino também nos anunciou esse bonito e profundo mistério sobre nós: somos o nosso coração.

O coração é aqui compreendido não apenas como um órgão de nosso corpo, mas como um símbolo antropológico-teológico no qual se sintetiza o núcleo mais profundo do ser humano, para além de todas as aparências e superficialidades (cf. DN 4), e onde fazemos as nossas decisões fundamentais. Como ensina a tradição espiritual da Igreja, o coração é reconhecido em seu “sentido bíblico de ‘fundo do ser’ (Jr 31, 33), onde a pessoa se decide ou não por Deus” (CIgC 368). Na Bíblia, o termo hebraico para coração é Leb, traduzido no grego por kardia e no latim por cor/cordis, e quer designar a sede das compreensões, das decisões e dos sentimentos mais profundos do ser humano. Ele manifesta, então, a “verdade íntima de cada pessoa” (DN 6), ser criado à imagem de Deus e capaz de amá-Lo com todo o coração (cf. Dt 6, 5; Mc 12, 29-30).

O Papa Francisco chamou a atenção para o fato de que o coração acabou não tendo muita importância nos estudos filosóficos e antropológicos quando o que estava em jogo era o esforço por definir o que é o ser humano ou suas características mais fundamentais. Em geral, diz ele, “preferiram-se outros conceitos, como a razão, a vontade ou a liberdade” em vez de falar de coração, e que essa nossa “realidade mais íntima é também a mais afastada do nosso conhecimento” (DN 10). Essa é uma provocação que não podemos ignorar.

Embora a reflexão filosófico-antropológica não tenha dado o devido valor ao coração, o Papa Francisco recorre a exemplos da literatura mundial para explicar que encontramos muitas expressões que exaltam o coração como o símbolo distintivo do

ser humano e que frequentemente utilizamos essa figura para exemplificar um ato de desumanidade: dizemos, por exemplo, que determinada pessoa “não tem coração” quando nos deparamos com a sua maldade (cf. DN 12) ou mesmo que um mundo marcado pela indiferença é um mundo no qual “falta o coração” (DN 9), “é uma sociedade ‘anticoração’” (DN 17). Por outro lado, para exaltar a grandeza de alguém, sua sensibilidade e proximidade generosa em relação a outra, costuma-se dizer que estamos diante de uma pessoa que tem um “bom coração”. Isso destaca uma interioridade que só o ser humano possui (cf. DN 12) e que o distingue de qualquer máquina e algoritmos previsíveis e manipuláveis (cf. DN 14).

Daí que se pode dizer que o coração conhece a realidade até mesmo com mais profundidade que a própria razão. Ainda que a antropologia filosófica tenha falado do ser humano mais em termos de racionalidade, vontade, inteligência e liberdade, a sabedoria cristã leva a pessoa humana a dizer “eu sou meu coração” (DN 14), demonstrando que só estamos em plena harmonia com a nossa própria natureza na medida em que tudo está “sob o ‘controle político’ do coração” (DN 13), desse coração que “tem razões que a própria razão desconhece”, como diz a famosa frase do filósofo Blaise Pascal (Pensamentos, fragmento 277). Nesse sentido, Francisco complementa o seu ensinamento falando da necessidade de que:

 

[…] a inteligência e a vontade sejam também postas a seu serviço [a serviço do coração], sentindo e saboreando as verdades em vez de as querer dominar, como algumas ciências tendem a fazer; que a vontade deseje o bem maior que o coração conhece, e que a imaginação e os sentimentos se deixem também moderar pelas batidas do coração (DN 13).

 

Como se vê, o coração também conhece, sente, deseja, acolhe, discerne, decide. O coração é a pessoa humana: “eu sou meu coração, porque é ele que me distingue, que me molda na minha identidade espiritual e que me põe em comunhão com as outras pessoas” (DN 14). O coração é, assim, uma palavra muito importante para o nosso conhecimento sobre a pessoa humana. Se a filosofia e a teologia, em especial, e as demais ciências e sabedorias, como um todo, de fato quiserem encontrar “uma síntese integral” sobre o que é o ser humano (cf. DN 15), elas não devem se esquecer desse “núcleo de cada ser humano, o seu centro mais íntimo” (DN 21), que é o seu coração. E cientes de que ele “não é o núcleo da alma, mas da pessoa inteira na sua identidade única, que é alma e corpo. Tudo está unificado no coração” (DN 21), “expressão da totalidade da pessoa […] parte que representa o todo” (DN 55).

Também do ponto de vista social, político, econômico e cultural, essa “antropologia do coração” é fundamental. As palavras do Papa Francisco são certeiras: “levar o coração a sério tem consequências sociais” (DN 29). Diante dos grandes dramas do mundo, somos convidados a regressar ao núcleo do nosso coração humano, que, iluminado pelo Coração de Cristo, pode ser capaz de gestos profundos de paz, solidariedade, ternura, acolhimento, perdão e amor que transforma e gera vida. “É aí, nesse Coração, que finalmente nos reconhecemos e aprendemos a amar” (DN 30). O encontro com Jesus é um encontro de Coração a coração, do Dele com o nosso, e é nessa Escola do Coração de Jesus que aprendemos com profundidade a Sua “antropologia do coração”, que nos impulsiona a um outro encontro: de coração a coração, ou seja, agora do nosso com o dos irmãos e irmãs. Como ensina o Doutor da Igreja São John Henry Newman, a nossa comunicação com as pessoas só acontece de modo verdadeiro quando se trata de um encontro de corações, de corações falando a corações (cor ad cor loquitur), com real reconhecimento e abertura ao sagrado que cada pessoa humana é. Na Escola do Coração de Jesus aprendemos o que todas as coisas realmente são. No Coração de Cristo “tornamo-nos capazes de nos relacionar uns com os outros de forma saudável e feliz, e de construir neste mundo o Reino de amor e de justiça. O nosso coração, unido ao de Cristo, é capaz desse milagre social” (DN 28).

Em Jesus Cristo, “O Sagrado Coração”, conhecemos o próprio Coração de Deus e descobrimos que nós também somos coração: somos “pessoa” porque Deus é Pessoa; somos “coração” porque Deus é Coração. A pessoa humana é o seu coração porque a Pessoa Divina é o Seu Divino Coração.

Enfim, feitas essas considerações, que “nos colocaram diante do nosso próprio mistério pessoal, talvez a pergunta mais decisiva que se possa fazer seja esta: tenho coração?” (DN 23). Há uma grande contribuição antropológica aí. Não devemos nos desviar desse questionamento. Sabemos que a resposta para ele é “sim”, já que não apenas “temos” um coração, mas que “somos” coração. Porém, também sabemos que podemos nos desviar de nosso núcleo mais profundo e corremos o risco de viver de modo menor em comparação ao que realmente somos. Tenho coração? Essa é uma pergunta que nos leva ao que somos e ao que temos feito com aquilo que somos, é um questionamento central que, uma vez mais, nos permite ser tocados pelo anúncio do Evangelho da Pessoa. Qual é a nossa resposta? Temos coração?

Prof. Dr. Elvis Rezende Messias[1]

[1] Professor-pesquisador do Instituto Federal do Triângulo Mineiro, escritor, palestrante, é cristão leigo casado da Diocese da Campanha, onde atua como assessor diocesano do Movimento Fé e Política.

Imagem: Reprodução Facebook Aparecida/SP – Brasil

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