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O desafio do desenvolvimento humano integral

O desafio do desenvolvimento humano integral

Braso D. Pedro

No mês de janeiro passado, tive o prazer de participar de um congresso para bispos de diversas partes do mundo, em Sintra (PT), organizado pela “Acton Institute”. Dentre muitos temas abordados no congresso, destaco a conferência do Prof. Dr. Samuel Gregg, pesquisador da “Acton Institute” e membro da Royal Economic Society. O tema discorrido pelo ilustre professor foi: “O Capitalismo Clientelista: ineficiente, corrupto e iníquo”.  Ao tratar do Desenvolvimento Integral, o supracitado pesquisador sublinhou que tal desenvolvimento deve ser uma escolha de todos os cristãos, pois ele diz respeito aos vários aspectos da vida humana.  Quando a pessoa não tem possibilidade de se libertar da pobreza, todos nós sofremos enquanto perdurar este quadro.

O Capitalismo Clientelista torna-se, assim, um grande desafio para atingirmos o ideal do desenvolvimento humano integral. Este está presente hoje em todas as sociedades do mundo. É preciso destacar que este capitalismo é injusto e ineficiente. Além disso, somos conscientes da dificuldade de eliminá-lo totalmente. Esta forma de capitalismo está presente em muitas sociedades modernas gerando, não poucas vezes, uma economia injusta e desigual. Este clientelismo traz um benefício apenas de um pequeno grupo. Tal clientelismo está muito presente nos países em desenvolvimento, mas também em economias bem desenvolvidas. O clientelismo torna-se um grande problema quando o mercado político e o sucesso econômico vêm apoiados em privilégios individuais. Isso faz com que o governo e os políticos favoreçam algumas empresas, isto é, a proteção de alguns grupos e a criação de taxas de interesse destes mesmos. Lembramos que aqui não há uma livre competição. Isto explica a marcha de muitos grupos em busca de políticos, a fim de serem favorecidos, excluindo qualquer tipo de concorrência. Querem sempre favores que se explicitam nas vultosas doações para algumas campanhas políticas. Infelizmente, vivemos em uma cultura corrupta que parece ter se familiarizado com esta prática.

O ilustre pesquisador destacou ainda que tal jogo não só se tornou perigoso, como também aumenta o quadro de desigualdade e pobreza, pois as grandes empresas, em geral, não investem nas áreas periféricas e não trazem nenhum benefício para os mais necessitados. O célebre filósofo e economista inglês Adam Smith (“A Riqueza das Nações”) acenou contra o capitalismo clientelista, já que este traz sempre um favorecimento para alguns poucos investidores e de famílias tradicionais e monopolistas. Ele tem uma estrutura corporativista e não é favorável à competição. E aqui se fundamenta a crítica a este modelo de capitalismo, por ser desigual e injusto, além de comprometer o crescimento da economia.  Dá pouco espaço às novas ideias e aos jovens empreendedores, e é aqui que se espelha a sua injustiça. Há uma excessiva dominação da política de interesse, gerando uma economia que se baseia na vantagem e no ganho de alguns, com pouca ou quase nenhuma preocupação com uma équa distribuição dos bens.

O fim de tudo isso não poderia ser outra coisa que uma distribuição da riqueza de forma injusta; sem falar de uma acentuada dominação política de interesse, que pouco se interessa por uma justa distribuição. Consequentemente, assistimos a uma corrupção do mercado, gerando uma desigualdade que desfavorece, sobretudo aos mais pobres, ou seja, aqueles que não têm quase acesso às políticas públicas dos governos, devido aos privilégios econômicos de alguns.

A pergunta pertinente do professor  e conferencista é: diante deste quadro, o que pode dizer a Igreja? À luz da Palavra de Deus e dos Documentos Sociais, devemos formar uma liderança leiga, sobretudo neste ano do laicato, a fim  de  identificarmos estas práticas injustas e lutarmos por uma economia mais justa e distributiva. Se não conseguimos eliminar totalmente este comportamento do Capitalismo Clientelista, pelo menos devemos nos empenhar para formarmos líderes eclesiais que saibam, de forma crítica e equilibrada, enfrentar tal problema, que não deixa de ser uma violação à liberdade.

É urgente o empenho de todos em aprofundar e buscar o desenvolvimento humano e social, assim como promover o bem comum como expressão de negação aos privilégios e favorecimentos de alguns, que só resulta em desigualdade e injustiça. Que haja entre nós uma política que atenda o bem de todos e dê uma atenção especial aos jovens empreendedores, a fim de que eles tenham espaço, voz e vez. Não poucas vezes, São João Paulo II acenava a favor de uma Economia Liberal, no sentido que esta deva favorecer o desenvolvimento humano integral. Na base da formação de uma economia mais justa está a Ética. O destino universal dos bens e o direito universal ao seu uso é uma “regra de ouro” do comportamento social e o “primeiro princípio de toda a ordem ético-social” (João Paulo II, Carta Encíclica Laborem exercens, 19). Nesta mesma direção, também o Papa emérito Bento XVI, alertava sobre a necessidade de se moralizar a economia para que ela seja mais justa. A crise ética está na raiz de muitos destes males. Na sua Encíclica ecológica, Papa Francisco bem destacou: ”Basta observar a realidade para compreender que, hoje, esta opção é uma exigência ética fundamental para a efetiva realização do bem comum” (Laudato Si, 158).

Mesmo sabendo que o capitalismo clientelista ainda está muito presente em inúmeros países, temos que formar a consciência dos políticos, empreendedores e de todos os seguimentos sociais, que o clientelismo vai sempre contra os princípios de uma sociedade que se propõe menos desigual, e que ele pode favorecer um falso assistencialismo no confronto com os mais pobres; chegando mesmo a afetar a pessoa humana enquanto tal, com direitos fundamentais e inalienáveis. O Estado democrático de direito deve garantir não somente a liberdade de cada cidadão, mas sobretudo, as suas condições basilares de vida, ao que chamamos de princípio de subsidiariedade, isto é, a estabilidade e a segurança de uma certa ordem, que não se realiza sem uma atenção particular à justiça distributiva  (Cf. Laudato Si, 157). Cabe ainda dizer que toda a sociedade e, em especial, o Estado, tem obrigação de promover o bem comum e o desenvolvimento integral de todos os cidadãos. Se quisermos uma sociedade sã, madura e soberana, não há outro caminho que não seja o da conscientização e formação ética de todos sobre este grave problema, de modo especial, os representantes dos poderes públicos. A economia deve florir e fluir de modo justo, sem o favorecimento de poucos. Ela deve ser sempre aberta e inclusiva. Garantir estes princípios deve ser o papel de toda autoridade que se entenda a serviço de um povo. Caso contrário, assistiremos sempre mais a um clientelismo que fomenta a “praga da corrupção” e aumenta o abismo da desigualdade.

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