Distrito de Itaci – Carmo do Rio Claro (MG) – 1º de maio de 2026
Tema: “Construirão casas e nelas habitarão” (Is 65,21)
A 34ª Romaria do Trabalhador da Diocese da Campanha foi realizada no dia 1º de maio de 2026, no Distrito de Itaci, em Carmo do Rio Claro. Prosseguindo a caminhada das Romarias do Trabalhador, iniciada em 1991, esta edição, mais uma vez, reafirmou a vocação das Comunidades Eclesiais de Base e das Pastorais Sociais de unir espiritualidade, reflexão crítica e compromisso com a transformação da realidade.
Iluminados pela profecia de Isaías — “Construirão casas e nelas habitarão” —, os romeiros voltaram seu olhar para uma dimensão fundamental da dignidade humana: o direito à moradia. Mesmo com os programas governamentais para a habitação e o trabalho, o cenário nacional permanece problemático. O povo resiste diante da precarização do trabalho, do déficit habitacional e da negação de direitos básicos. A Romaria é um espaço de denúncia profética e anúncio esperançoso de uma sociedade onde toda pessoa possa viver com dignidade, segurança e pertença.
Ainda na madrugada, caravanas de toda a Diocese da Campanha e também de dioceses irmãs colocaram-se a caminho. Vieram de Boa Esperança, Campanha, Campos Gerais, Coqueiral, Guaxupé, Ilicínea, Passa Quatro, Pouso Alegre, Pouso Alto, São Gonçalo, São Lourenço, Soledade, Três Corações, Três Pontas e Varginha e tantas outras cidades. Ao todo, centenas de romeiros enfrentaram horas de viagem, muitas delas por estradas longas e, nos últimos trinta quilômetros, por caminhos de terra cobertos de poeira. O sacrifício do percurso tornou-se expressão concreta da mística da romaria: caminhar, sair de si, enfrentar o cansaço e transformar a estrada em oração.
A chegada a Itaci foi marcada pela calorosa acolhida da comunidade local, pertencente à Região Pastoral do Senhor Bom Jesus dos Aflitos. Com simplicidade e generosidade, os romeiros foram recebidos com um fraterno café da manhã, sinal da hospitalidade evangélica que caracteriza nossas comunidades.
Ofício Divino das Comunidades
A abertura da 34ª Romaria do Trabalhador aconteceu com a celebração do Ofício Divino das Comunidades. Presidido pelo Pe. Alex e pelas comunidades de Passa Quatro, este momento inicial aconteceu em uma praça atrás da igreja matriz, um lugar com grandes árvores, sombra e um gramado. A assembléia reunida em círculo, foi acolhida pelo canto “Seja bendito quem chega”, enquanto mulheres da comunidade incensavam o ambiente e a multidão, expressando acolhida, bênção e consagração daquele espaço sagrado de encontro e partilha.
Seguiram-se os versos de repetição cantando Abertura do Ofício. O povo trabalhador elevou seu louvor ao Deus da vida, reconhecendo-se como peregrino da esperança. As palavras e os cantos reforçaram a identidade de um povo em marcha, sustentado pela confiança na fidelidade do Senhor. Em meio à assembleia reunida, subiu o incenso das mãos e dos corações, como sinal das preces, dos sonhos e das lutas do povo trabalhador que, mais uma vez, se colocava a caminho. A Romaria revelava-se, assim, não apenas como evento, mas como expressão viva de uma Igreja peregrina, encarnada na história e solidária com os clamores do povo.
Na Recordação da Vida, o Pe. José Roberto dirigiu palavras de acolhida aos romeiros vindos das diversas paróquias, comunidades e dioceses. Sua saudação destacou a alegria de acolher tantas pessoas reunidas pela mesma fé e pelo mesmo compromisso com a justiça. Recordou também a história e o significado da Romaria do Trabalhador, nascida da caminhada das Comunidades Eclesiais de Base, como espaço de oração, denúncia profética, formação da consciência e fortalecimento da organização popular. Nesse momento, a vida concreta do povo — suas alegrias, sofrimentos, lutas e esperanças — foi colocada diante de Deus, tornando-se matéria viva da oração comunitária.
O Hino da Campanha da Fraternidade 2026 aprofundou ainda mais o sentido da celebração, ao recordar que o próprio Deus “veio morar entre nós”.
A proclamação do Salmo 84(83) revestiu-se de especial significado. Ao cantar o desejo de habitar na casa do Senhor, a assembleia reconheceu que Deus é abrigo seguro para os peregrinos e fonte de força para os que caminham. A imagem do passarinho que encontra ninho para seus filhotes tornou-se significativa diante do tema da Romaria: se até as aves encontram morada, quanto mais os filhos e filhas de Deus devem ter garantido o direito a um lar. Olhando para o alto é possível ouvir o canto dos pássaros na copa das árvores. Assim, oração e realidade se entrelaçaram numa profunda experiência espiritual e profética.
A leitura do profeta Habacuc (2,9-12) trouxe à celebração uma forte denúncia contra a injustiça e a acumulação construída à custa da exploração. A Palavra advertiu contra aqueles que edificam suas casas sobre a opressão, enquanto a pedra e as vigas clamam contra toda forma de injustiça. Em seguida, o responsório reforçou a convicção de que a miséria não é vontade de Deus, mas consequência da indiferença humana. A pobreza estrutural, portanto, exige não resignação, mas compromisso efetivo com a transformação da realidade.
Após a oração do Pai-Nosso e a prece conclusiva, os romeiros foram enviados à caminhada com a bênção de Deus, pedindo luz e sabedoria para construir uma sociedade fundada na justiça, na fraternidade e na paz. O rito da aspersão com água perfumada e pétalas de flores coroou esse momento. Enquanto o canto recordava Cristo como água viva, a assembleia foi aspergida como sinal de renovação, purificação e compromisso batismal.
Ao longo de toda a Romaria, um gesto marcante reforçou a mística da caminhada: o toque do berrante, que ecoou solenemente no início de cada parada. Seu som forte convocava os romeiros à atenção, à escuta e ao compromisso. Mais do que um simples sinal sonoro, o berrante tornou-se voz profética que chamava o povo a contemplar a realidade, a iluminá-la com a Palavra de Deus e a assumir, com coragem, os compromissos do Reino. Seu eco ressoou como chamado à unidade, à resistência e à esperança, acompanhando cada etapa dessa grande peregrinação de fé e luta.
Primeira Parada
Na primeira parada, a Romaria mergulhou na realidade concreta da vida do povo trabalhador, em um momento marcado pela força da arte, da reflexão e da mística.
Na reflexão do Ver, Neo Lara recordou que a moradia digna é um direito humano conquistado ao longo de uma importante trajetória histórica e jurídica. Lembrou que uma das primeiras constituições do mundo a reconhecer explicitamente a moradia como direito social foi a Constituição Mexicana de 1917, marco pioneiro na afirmação dos direitos sociais. Posteriormente, esse reconhecimento foi ampliado no âmbito internacional, especialmente com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela Organização das Nações Unidas em 1948, que afirma, em seu artigo 25, o direito de toda pessoa a um padrão de vida adequado, incluindo habitação. No Brasil, esse direito ganhou força com a Constituição Federal de 1988 e foi expressamente incorporado ao rol dos direitos sociais pela Emenda Constitucional nº 26, de 2000. Neo destacou que o direito à moradia vai muito além de possuir uma casa: ele compreende segurança, saneamento, infraestrutura, acesso aos serviços essenciais e condições que garantam proteção, convivência familiar e dignidade. Assim, reafirmou que lutar por moradia digna é defender um direito fundamental, fruto de longas conquistas sociais e expressão concreta do respeito à vida humana.
Após a reflexão inicial a encenação “Chão, Teto e Caminho”, coordenada com sensibilidade e criatividade por Mariângela e Luiz Henrique, tornou-se um dos momentos expressivos da caminhada. Inspirada na linguagem popular e festiva dos bonecos gigantes, a apresentação deu rosto, voz e movimento aos grandes clamores do povo por trabalho digno, moradia e justiça.
Três personagens simbólicos conduziram esta reflexão: o Trabalhador, a Casa e o Caminhante. Enquanto Celinho, Fernando e Belga emprestavam suas vozes e seu canto aos personagens, Mateus, Aloísio e Mateus conduziam os bonecos gigantes, conferindo dramaticidade e impacto visual à encenação. A combinação entre música, teatro e expressão popular envolveu os romeiros, ajudando-os a contemplar, com o coração e com a razão, a realidade vivida por milhões de brasileiros.
O primeiro personagem a entrar em cena foi o Trabalhador, ao som vibrante de “Tô Saindo Pra Batalha”. Sua presença trouxe à tona o cotidiano de quem sai de casa antes do amanhecer, enfrenta longas jornadas e, mesmo trabalhando arduamente, continua privado de condições dignas de vida. Sua fala expressou a dor de quem constrói casas, edifícios, escolas e igrejas, mas muitas vezes não possui uma moradia digna para si e sua família. A canção “Cidadão” de Zé Ramalho aprofundou ainda mais essa denúncia, revelando a contradição de uma sociedade que se ergue sobre o suor do trabalhador, mas frequentemente lhe nega reconhecimento, direitos e pertencimento.
Em seguida, surgiu a personagem Casa. Sua voz poética e profética recordou que a casa não é mera mercadoria, mas espaço de vida, abrigo, afeto e dignidade. Por meio de frases diretas, foram evocadas as inúmeras faces da realidade habitacional brasileira: o barraco improvisado, o aluguel que sufoca, o despejo que ameaça, as moradias precárias e, ao mesmo tempo, o sonho persistente de um lar seguro. A Casa denunciou a especulação imobiliária e a injustiça de tantas moradias vazias enquanto milhares de famílias seguem sem teto, reafirmando que moradia é direito, não privilégio. Finalmente, o sonho da moradia ecoou ao som suave e nostálgico de “Casinha Branca” de Gilson Vieira.
Por fim, entrou em cena o Caminhante, ao som de A Casa e o Caminhante, uma paráfrase para a melodia de “A Estrada e o Violeiro” de Sidney Miller, representando o povo em marcha, a comunidade organizada e a esperança que se transforma em ação. Sua fala recordou que ninguém caminha sozinho e que a transformação social nasce da união, da solidariedade e do compromisso coletivo. O Caminhante uniu simbolicamente as dores do Trabalhador e os sonhos da Casa, apontando para um horizonte de luta e esperança. A canção “A Casa e o Caminhante” sintetizou essa união entre moradia, caminhada e organização popular, proclamando que toda estrada pode se tornar casa quando há partilha, justiça e comunhão.
O momento culminou com a entrada conjunta dos três personagens. Em uma poderosa síntese, Trabalhador, Casa e Caminhante proclamaram que suas dores, sonhos e esperanças são inseparáveis. A voz coletiva dos romeiros ecoou com força: somos povo trabalhador, somos gente que luta por moradia digna, somos romeiros da esperança. Ao som de “Povo Novo”, a assembleia reafirmou que é da realidade concreta, contemplada com coragem e iluminada pela fé, que nasce a Romaria — lugar onde Deus escuta o clamor do seu povo e o chama à organização, à resistência e à transformação.
A animação vibrante de Valdirene, Celinho, Sebastian e Luciana sustentaram o ritmo da caminhada, fazendo do canto e palavras de ordem uma verdadeira oração em movimento.
Segunda Parada
A Segunda Parada da Romaria foi iluminada pela Leitura Bíblica. Após contemplar a realidade concreta da vida do povo trabalhador na primeira etapa, os romeiros foram convidados a interpretá-la à luz da Palavra de Deus, discernindo os sinais do Reino e renovando a esperança em um mundo novo. Como em cada uma das paradas, o momento foi solenemente iniciado pelo som forte do berrante.
A iluminação bíblica deste momento foi preparada com especial dedicação pelas comunidades de Três Pontas, que ofereceram à Romaria uma experiência orante e participativa. Coube a Hosana, Cleusa, ao senhor Vicente Elias e aos membros da Pastoral Afro-Brasileira conduzir a assembleia em uma dinâmica rica em simbolismo, espiritualidade e participação popular. Com a entrada solene da Bíblia, ao som vibrante de “Fazei Ressoar”, a Palavra de Deus foi acolhida como luz para os caminhos do povo. O canto, marcado pela valorização da cultura popular, da diversidade dos povos e da luta por justiça, reforçou a convicção de que o Evangelho deve ressoar em todos os espaços da vida: na cultura, no trabalho, na moradia, nas comunidades e nas lutas do povo.
A proclamação do texto do profeta Isaías (65,17-23) tornou-se o coração desta parada. A promessa divina de “novos céus e nova terra” reacendeu nos romeiros a certeza de que a história não está condenada à repetição das injustiças. A Palavra anunciou um futuro em que não haverá mais choro, exploração ou sofrimento; um tempo em que cada pessoa poderá habitar a casa que construiu, colher os frutos do próprio trabalho e viver em dignidade. Trata-se da visão bíblica de uma sociedade fundada na justiça, onde terra, teto e trabalho são direitos efetivamente garantidos a todos.
Na reflexão do Julgar, Daniele, da Pastoral da Criança, destacou que Deus deseja uma vida digna para todos, onde cada pessoa possa usufruir do fruto do seu trabalho e habitar com segurança. Diante disso, evidenciou o contraste entre esse projeto divino e a realidade de tantos trabalhadores e famílias que ainda vivem sem condições dignas de trabalho e moradia. Sua reflexão recordou que a fé não se limita a denunciar as injustiças, mas nos chama ao compromisso concreto com a transformação da sociedade, para que terra, teto e trabalho sejam direitos garantidos a todos.
A partir dessa proclamação, desenvolveu-se o jogral “A Nova Terra Começa em Nós”, conduzido pelos representantes das comunidades de Três Pontas e da Pastoral Afro-Brasileira. Em linguagem simples e direta, o jogral convidou cada participante a confrontar-se com sua própria história. Foram recordadas as alegrias e conquistas, mas também as dores, feridas, medos, frustrações e perdas que todos carregam ao longo da vida. A assembleia foi então chamada a reconhecer que o passado, embora faça parte de sua trajetória, não precisa determinar seu futuro. Houve o gesto simbólico da entrega do passado. Cada romeiro foi convidado a pegar o papel branco recebido durante o café da manhã e, em silêncio, recordar interiormente aquilo que desejava deixar para trás: medos, ressentimentos, fracassos, culpas, desânimos ou qualquer peso que dificultasse a caminhada. Em seguida, ao som da reflexão e da oração, todos foram convidados a caminhar até o cesto preparado para esse gesto e ali depositar simbolicamente aquilo que já não desejavam carregar. A proclamação coletiva — “Hoje eu escolho soltar!” — ecoou como um verdadeiro ato de libertação interior e de confiança na ação renovadora de Deus.
Na sequência, um novo gesto convidou a assembleia ao movimento. Ao deixarem seus lugares e darem alguns passos, os romeiros expressaram corporalmente uma verdade espiritual profunda: quem decide mudar não permanece onde está. O deslocamento físico tornou-se sinal de conversão, de decisão e de abertura ao novo. A afirmação repetida por todos — “Eu caminho para o novo!” — traduziu a disposição de seguir adiante, deixando para trás aquilo que paralisa e acolhendo os horizontes que Deus abre.
Finalizando cada participante foi convidado a contemplar o coração recebido como símbolo. Erguendo-o diante de si, cada pessoa foi chamada a olhar para dentro de si mesma, reconhecendo o amor infinito de Deus e escutando o que esse amor despertava em seu interior: um sonho, uma decisão, um recomeço, uma nova missão. O coração elevado tornou-se sinal visível de uma escolha consciente e de uma fé renovada. Unida, a assembleia proclamou com convicção: “O novo começa agora!”
A celebração terminou em uma profissão de fé comunitária. Com entusiasmo, os romeiros declararam: “O passado não me define! Eu creio no novo! Eu escolho recomeçar! Eu vou viver com alegria!”. Essas palavras, repetidas com vigor, transformaram-se em compromisso pessoal e coletivo. Mais do que simples frases, constituíram uma adesão renovada ao projeto de Deus e à construção de uma nova realidade.
Terceira Parada
A Terceira Parada da Romaria, dedicada ao momento do Agir, foi igualmente significativa. Depois de ver a realidade e julgá-la à luz da Palavra de Deus, chegava a hora de assumir compromissos concretos, transformando reflexão em ação, esperança em compromisso. Como nas etapas anteriores, o início deste momento foi marcado pelo toque do berrante nas margens do Lago de Furnas e em frente à igreja do Senhor Bom Jesus dos Aflitos.
A reflexão foi conduzida pelo Padre Jean Poul, assessor nacional das campanhas da CNBB, entre elas a Campanha da Fraternidade 2026, que neste ano tratou da questão da moradia. Com clareza e sensibilidade pastoral, recordou que a moradia é, antes de tudo, um direito humano fundamental, expressão concreta da dignidade da pessoa e condição essencial para uma vida plena. Uma casa não pode ser reduzida a mercadoria, objeto de lucro ou privilégio de poucos. Ela é espaço de proteção, afeto, pertencimento e construção da vida familiar e comunitária. Em sua reflexão, Padre Jean denunciou com firmeza as estruturas de injustiça que negam esse direito a milhões de pessoas. Lembrou que as profundas desigualdades sociais e econômicas não são fruto do acaso, mas consequência de um sistema neoliberal que privilegia o capital acima da pessoa humana, concentrando riquezas e excluindo os mais pobres. Nesse modelo, o lucro vale mais do que a vida, e direitos fundamentais, como trabalho e moradia, acabam subordinados à lógica do mercado. Diante disso, convocou a assembleia a cultivar um “sonho grande”: o sonho evangélico de uma sociedade em que todos tenham acesso a condições dignas de vida.
Mas sua reflexão não permaneceu apenas no plano das grandes análises sociais. Sabiamente, recordou que a transformação do mundo começa também nas pequenas ações do cotidiano. O lema, sonhar grande e agir localmente, tornou-se uma convocação concreta para todas as comunidades. São tarefas indispensáveis a defesa políticas públicas de habitação e a luta por justiça social, mas é igualmente essencial olhar para perto, identificar as famílias que vivem em moradias precárias e mobilizar a comunidade em ações solidárias. Reformar um telhado, melhorar uma instalação sanitária, ajudar na construção ou recuperação de uma casa — tudo isso é expressão concreta do Evangelho vivido. Assim, a luta por moradia digna se traduz em gestos de fraternidade, mutirão e compromisso comunitário.
Após essa reflexão, a Romaria passou ao momento de assumir os compromissos. Conduzidos pelo padre Janício da Diocese de Guaxupé e por Valdirene, os romeiros foram convidados a transformar em compromisso aquilo que haviam rezado, refletido e celebrado. A cada proposta apresentada, a assembleia respondia com voz firme: “Nós nos comprometemos!”. Comprometeram-se a defender o trabalho digno, com direitos assegurados e livre de toda forma de exploração; a defender a moradia como direito humano, denunciando despejos injustos e a especulação imobiliária; a fortalecer a organização popular, as pastorais sociais, as comunidades e os movimentos; e a transformar a fé em atitudes concretas nos bairros, nas comunidades e nos locais de trabalho.
Em seguida, num gesto de forte dimensão profética, a assembleia proclamou a convicção que sintetiza toda a Romaria: “Vida digna é direito!”. Essa afirmação foi repetida com vigor em favor de todos: para quem trabalha; para quem mora de aluguel ou ainda não possui casa; para quem vive nas periferias urbanas e nas comunidades rurais; para todo o povo. O clamor coletivo ecoou como denúncia das injustiças e, ao mesmo tempo, como anúncio da esperança de um mundo novo.
Prosseguindo a terceira parada, a Romaria integrou-se também às celebrações do Ano Jubilar Franciscano, que em 2026 recorda os 800 anos da páscoa de São Francisco de Assis. Nesse contexto, José Jorge conduziu uma bela recordação da vida e do testemunho do santo de Assis, apresentando-o como homem da paz, da fraternidade universal e da ecologia integral. Recordou que São Francisco continua sendo, oito séculos depois, uma inspiração luminosa para a Igreja e para toda a humanidade, especialmente em tempos marcados por conflitos, desigualdades e agressões à Casa Comum.
Em seguida, toda a assembleia foi convidada a rezar a oração composta pelo Papa para este Ano Jubilar Franciscano, suplicando a intercessão de São Francisco para que sejamos construtores de paz, derrubemos muros de divisão e tenhamos coragem de construir pontes de reconciliação. A oração reforçou a vocação dos cristãos a serem testemunhas desarmadas e desarmantes da paz que vem de Cristo.
O encerramento desta terceira parada foi profundamente simbólico. Diante do cenário natural das margens do Lago de Furnas, ao som do Cântico das Criaturas, os romeiros foram convidados a aproximar-se das águas. Em um gesto simples, porém carregado de significado, tocaram as águas do lago e aspergiram-se mutuamente. Esse rito evocou a gratidão pela criação, a responsabilidade pelo cuidado da Casa Comum e a renovação do compromisso com a vida em todas as suas formas.
Assim, a Terceira Parada concluiu a caminhada unindo compromisso social, espiritualidade franciscana e cuidado com a criação. À beira das águas, sob o céu aberto e em comunhão com toda a criação, os romeiros renovaram sua missão de ser, no mundo, sinais vivos de esperança, fraternidade e transformação.
Celebração Eucarística
A Romaria culminou na Celebração Eucarística, na Igreja do Senhor Bom Jesus dos Aflitos. Depois de uma manhã de caminhada, oração, reflexão e compromisso, os romeiros reuniram-se em torno da mesa da Palavra e do Pão. A celebração foi presidida por Dom Walter Jorge, bispo da Diocese da Campanha, e concelebrada por mais de dez sacerdotes vindos de diversas paróquias da região.
Toda a liturgia foi marcada pela memória de São José Operário, cuja festa ilumina a vocação e a dignidade do trabalho humano. Na procissão de entrada, além dos ministros, sacerdotes e bispo, participaram também trabalhadores e trabalhadoras, protagonistas da caminhada e razão de ser da Romaria. Eles trouxeram consigo os símbolos que sintetizaram a espiritualidade e o compromisso deste ano: o Estandarte da Romaria, a Cruz, a Palavra de Deus, instrumentos de trabalho representando as diversas profissões e a imagem de São José. Cada símbolo carregava consigo a história, a luta, a fé e a esperança do povo trabalhador. Os cantos reforçaram a centralidade de São José como homem justo, trabalhador e fiel ao projeto de Deus. Em cada melodia ressoava a memória daquele que, com suas mãos de carpinteiro, sustentou a Sagrada Família e ensinou a Jesus o valor do trabalho, da responsabilidade e da dignidade humana.
No momento do ofertório, juntamente com o pão e o vinho, foram apresentados outros dons: água, terra e alimentos, sinais concretos da criação, do trabalho humano e da partilha. Esses elementos recordaram que a Eucaristia abraça toda a realidade da vida: a terra que produz, a água que sustenta, o alimento que nutre, o trabalho que dignifica e a solidariedade que constrói fraternidade.
Em sua homilia, Dom Walter Jorge ofereceu à assembleia uma reflexão profunda, atual e profeticamente comprometida, verdadeira catequese sobre a Doutrina Social da Igreja. Partindo da figura de São José Operário, recordou que o trabalho não é apenas meio de subsistência, mas participação na obra criadora de Deus e expressão fundamental da dignidade humana. Lembrou também que Jesus, em Nazaré, aprendeu com José não apenas um ofício, mas a santificar a vida cotidiana pelo trabalho simples e honesto.
Com coragem pastoral, Dom Walter denunciou a lógica de um mercado que transforma tudo em mercadoria, inclusive a própria vida humana, gerando exclusão, desigualdade e descarte. Alertou para as novas formas de precarização do trabalho, especialmente a pejotização e outras modalidades que fragilizam direitos historicamente conquistados pelos trabalhadores. Tema tratado na última Assembléia dos Bispos do Brasil em Aparecida. Como exemplo da desumana precariazação das relações trabalhistas, citou os motoboys que ariscam as vidas em suas corridas diárias pelas ruas das cidades, sem o aparo social, previdenciário e jurídico. Mencionou também a urgência de refletir sobre a redução da jornada de trabalho, especialmente diante das exigências desumanizantes de modelos como a escala 6×1, que comprometem a saúde, a convivência familiar e a qualidade de vida.
Sua reflexão estendeu-se ainda à questão da moradia, tema central da Romaria e da Campanha da Fraternidade deste ano. Chamou a atenção para as condições inadequadas em que vivem tantas famílias, reafirmando que uma moradia digna é direito essencial e condição indispensável para uma vida plena. Ao fazê-lo, articulou de modo admirável os grandes eixos da Romaria: trabalho, moradia e dignidade humana.
Num momento particularmente significativo, Dom Walter dirigiu uma palavra especial sobre a formação dos futuros presbíteros, os seminarista que participavam da celebração, afirmando que eles devem ser preparados para uma Igreja próxima, sensível e comprometida com a realidade do povo, sobretudo dos mais pobres e sofridos. Essa exortação, recebida com caloroso aplauso pela assembleia, evidenciou o desejo de uma Igreja cada vez mais encarnada, missionária e fiel ao Evangelho.
Sua pregação deixou uma forte impressão entre os participantes, revelando um pastor atento aos desafios do nosso tempo, comprometido com uma Igreja em saída e sintonizado com as dores e esperanças do povo. Ao exortar a assembleia a não se deixar seduzir pelo ódio, pela mentira e pelas divisões, Dom Walter convidou todos a permanecerem fiéis ao Evangelho e a seguirem os passos do Carpinteiro de Nazaré, construindo relações de fraternidade, justiça e paz.
Ao final da celebração, um gesto simples, mas profundamente eloquente, confirmou concretamente a mensagem anunciada: Dom Walter almoçou com os romeiros, partilhando da mesma refeição servida a todos. Esse gesto de proximidade, simplicidade e comunhão tornou-se sinal visível de uma Igreja que caminha com o povo, partilha sua vida e se reconhece como irmã entre irmãos.
Assim, a Celebração Eucarística encerrou a Romaria não como um ponto final, mas como envio missionário. Fortalecidos pela Palavra e alimentados pelo Corpo de Cristo, os romeiros retornaram às suas comunidades renovados na fé e comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa, onde terra, teto e trabalho sejam direitos de todos.
Como gesto de gratidão e memória, ao final da Romaria, durante o almoço fraterno, cada romeiro recebeu uma lembrança: uma pequena casa de papelão com o emblema da Romaria. Feitas com carinho e criatividade por Mariângela, Aloísio Cleusa e Mirian, essas casinhas tornaram-se muito mais que uma recordação material. Elas sintetizaram o tema central da caminhada: o direito à moradia digna como expressão da dignidade humana. Levadas para casa nas mãos dos participantes, tornaram-se sinal concreto onde toda pessoa tenha terra, teto e trabalho.
Pe. José Roberto de Souza – Animador do Núcleo Diocesano da Caridade
