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CONHECER A DEUS PELA INTELIGÊNCIA?

CONHECER A DEUS PELA INTELIGÊNCIA?

WhatsApp Image 2021-05-10 at 11.31.17-2“A Deus, ninguém jamais viu” (Jo 1,18). Com estas palavras, o primeiro capítulo do evangelho segundo João nos recorda que tudo o que nós sabemos sobre o “mistério” de Deus nos foi revelado plenamente em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor. Desde o início da relação de amor de Deus com a criação que Ele realizou e, de modo especial, com a humanidade, paulatinamente o Senhor foi se mostrando aos seus filhos nos gestos salvíficos que nos ofereceu (primeiramente naqueles narrados nos livros do Antigo Testamento).

A Santíssima Trindade se revelou como Pai, e Filho e Espírito Santo: as Três Pessoas que são Um só Deus sempre agiram em conjunto, criando, conduzindo, libertando, amparando e redimindo os que se extraviavam do caminho da salvação. Às “apalpadelas”, a humanidade vai entendendo os desígnios de Deus na sua vida, indicando a direção a seguir. O “mistério” que o Senhor revela, portanto, não é um enigma ou um conjunto de “charadas”, mas algo que, de tão profundo, infinito, imenso, não pode ser compreendido pelo nosso pensamento de uma só vez.

Imaginemos o exemplo de uma altíssima montanha: podemos vê-la; reconhecemos que está ali, diante de nós; comparada à nossa altura de seres humanos, a montanha parece infinitamente maior; podemos tocar “um pedacinho” dessa serra tão grande, mas nunca seremos capazes de abarcá-la por inteiro, nunca poderemos abraçar a montanha com nossos braços tão limitados.

Assim também é o mistério de Deus: Ele se nos revelou em plenitude no seu Filho Jesus Cristo, o Verbo, a Palavra de Deus que se fez carne e habitou entre nós. Jesus é a “fôrma”, o modelo que a Santíssima Trindade utilizou para fazer todas as coisas e para nos mostrar a via do amor e da salvação: Ele é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). E, se queremos contemplar a “verdadeira” face de Deus que Jesus nos revela, dizem alguns teólogos que nós a encontramos no capítulo 15 do evangelho segundo Lucas (nas três parábolas sobre a misericórdia de Deus).

Da parte de Deus, portanto, não falta nada: Ele se deu a conhecer a nós na plenitude dos tempos! Da nossa parte, contudo, às vezes faltam algumas condições para podermos nos encontrar verdadeiramente com o Senhor, conhecer os seus desígnios de amor e perseverar na sua presença. Agora, se já é difícil para nós que temos fé (ou pelo menos dizemos ter), imaginem para aqueles que não fizeram ainda a sua experiência com Cristo. Será que eles podem chegar a algum conhecimento de Deus sem ler a Bíblia ou sem pertencer à Igreja?
São Tomás de Aquino (1224/5-1274), um dos maiores pensadores da história da Igreja, afirma que sim. Na sua obra-prima, a Suma de Teologia, este santo nos ensina que a existência de Deus é evidente nele mesmo: no ser de Deus, a sua essência se identifica com a sua existência que é eterna (existir eternamente é um atributo essencial de Deus). Porém, isso não é evidente para nós, uma vez que não conhecemos a essência de Deus “diretamente”, pois o nosso conhecimento tem início nas coisas materiais, enquanto Deus é imaterial (cf. S. Th., I, q. 2, a. 1; q. 12).

Graças a essa limitação, não podemos conhecer a Deus partindo da demonstração da própria essência de Deus, isto é, de como Ele é em si mesmo (já que isto não é acessível à nossa inteligência). Por outro lado, podemos chegar a alguma compreensão sobre a realidade divina a partir dos seus efeitos presentes no universo “concreto”, porque isso nós somos capazes de conhecer através da nossa razão natural, ou seja, da inteligência que todos os seres humanos possuem em condições sadias (cf. S. Th., I, q. 2, a. 2).

Esse conhecimento natural se dá por meio de cinco “vias”: a do movimento (as transformações sofridas pelas coisas); a da causa eficiente (aquilo que provoca consequências nas coisas); a da contingência (a efemeridade das coisas); a dos graus de perfeição das coisas; e a do governo ou ordenamento do mundo (cuja ordem é conduzida por alguém). Todos esses cinco efeitos nos levam a concluir, racionalmente falando, a necessidade da existência de um Deus que deu início a todas essas realidades, as quais, sem um princípio, permaneceriam sem explicação.

Portanto, o conhecimento de Deus pode ser atingido por meio da razão natural, quando o ser humano usa a sua inteligência para refletir sobre o mistério da origem e do sentido de todas as coisas. Todavia, São Tomás também reconhece que esse procedimento é fatigante, passível de erros e acessível a poucos. Além disso, existem verdades pertencentes ao âmbito da fé que não podem ser conhecidas a não ser com o auxílio da luz sobrenatural de Deus, a qual vem em socorro da razão humana (cf. S. Th., I, q. 1, a. 1; I-II, q. 109, a. 1; Sup. Boe. De Trin., q. 1, a. 1).

Desse modo, a via do conhecimento natural de Deus pode ser complementada (supplementum) pela via da graça sobrenatural, justamente para nos recordar que esta ciência não é um privilégio que nos conduz ao orgulho ou à arrogância intelectual, mas um dom que deve ser colocado à disposição dos demais, para a glória de Deus, o serviço da Igreja e a transformação da nossa realidade sociocultural.

Assim, podemos concluir em sintonia com o eminente pensador católico Jacques Maritain (1882-1973): “Demonstrar a vontade de Deus não é submetê-lo a nossas posições, nem defini-lo, nem se apoderar dele, nem manejar apenas ideias enfermas a respeito de um tal objeto, nem julgar nossa própria e radical dependência. O procedimento pelo qual a razão demonstra que Deus existe leva a razão a uma atitude de adoração natural e de admiração inteligente” (Les degrés du savoir, 1983, p. 669).

Pe. Wendel de Oliveira Rezende
Administrador da Paróquia de Careaçu,
professor da Faculdade Católica de Pouso Alegre
e do Seminário Diocesano da Campanha

 

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